Sobre os efeitos colaterais de se estar vivo

Apesar de sempre ter gostado muito dos Vlogbrothers, nunca parei para me interessar pelas obras do John Green. Porém, não deu para ignorar o surto coletivo que deu a blogsfera literária deu quando "A culpa é das estrelas" foi lançado aqui. Não sou fã de histórias envolvendo doenças terminais, o clima melancólico de hospital sempre me deixa nervosa. Mas a empolgação era contagiante, e esse logo entrou para a lista de "vou ler".

Como venho evitando ao máximo a compra de livros (kd espaço?), decidi participar desse booktour organizado pelo ConversaCult. A espera acabou sendo muito maior do que eu havia previsto, e por algum tempo acabei me arrependendo de ter assumido o compromisso da leitura. A culpa foi de "Paper Towns", obra do John que, apesar de ser boa, foi pura frustração para mim. Acho que, depois de tantos elogios vindos de pessoas em quem confio cegamente, esperava do cara a perfeição em forma de prosa.

Agora eu vejo como fui babaca por ter julgado a qualidade de escrita do autor só por causa de uma de suas obras. "A culpa é das estrelas" merecia um sucesso mais duradouro por aqui, é realmente muito bom!! Para os que não conhecem, saibam simplesmente que a protagonista, Hazel Grace, é uma adolescente que viveu boa parte da sua vida deitada devido ao câncer que quase a consumiu.  No momento em que o livro começa, ela está num estado considerado bom; o tumor está controlado e consegue ir e vir, ainda que presa a um cilindro de oxigênio. Levava uma vida pacata, quase que esperando a morte, até conhecer Augustus em um 'agradável' Grupo de Apoio à Crianças com Câncer.

Eu ainda não entendo aqueles que falam sobre como o livro não é melancólico, apesar do tema. Olha, é melancólico sim! Não dá para falar sobre viver com tamanho peso nas costas sem um ar de tristeza, seja por não poder ter mais tempo na Terra, por não conseguir fazer coisas maravilhosas consideradas banais pelas pessoas saudáveis. Mas a história não é mesmo sobre câncer - é sobre conviver com ele. Mais do que isso, é sobre viver. Lógico, como morrer é um efeito colateral de se estar vivo, esse é um dos assuntos da história. Mas há outras coisas: hobbies, desgostos, família, amigos, metas, sonhos, amor,... existem partes tristes e deprimentes, mas tem muitas felizes e hilárias.

Meus pensamentos são estrelas que não
consigo arrumar em constelações.
Alguém uma vez disse que, para escrever um livro, deve-se ter em mente que os personagens são mais importantes do que os acontecimentos. ACEDE prova direitinho essa afirmação. Todas as pessoas nesse livro são tão bem desenvolvidas que nenhuma parece artificial, e os relacionamentos que elas tem são reais ao ponto que eu consegui compará-los a alguns que eu mesma tenho ou vejo os outros terem. Não é preciso ter um filho com câncer para se achar na situação dos pais de Hazel, nem ficar cego para ter uma desilusão amorosa como a do Issac.

Acho que o único defeito do livro foi que o enredo arriscou muito pouco. O pano de fundo do casal é bem clichê e, se ele não fosse formado por Augustus e Hazel, tudo teria saído de forma muito diferente. Já vi outros contarem histórias muito parecidas, mas com outras pessoas. Enquanto essas me fizeram dormir, os dois de John me emocionaram muito (mas não cheguei a chorar. Crucifiquem-me), para vocês verem como a construção dos personagens fazem uma diferença DRÁSTICA. Enfim, a história ainda é boa, mas imaginem o quão inesquecível ela ficaria se o outro tivesse sido o escolhido para aquilo. Seria incrível ter visto o livro acabar no meio de uma frase.

Recomendo esse livro para todo mundo mesmo. Acho que, depois de tantos cancer books (e filmes também) dando uma visão limitada daqueles que sofrem com uma doença terminal, nossa visão sobre eles acabou distorcida. ACEDE te faz entender como é estar nessa situação, além de mostrar que as pessoas doentes são somente pessoas. São tão normais quanto aqueles considerados normais; nem mais, nem menos. São simplesmente mais azaradas.

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