Desafio Literário 2012 - Kokoro

Adoro mangás e eventos de anime, mas nunca tinha nem mesmo pensado em pegar para ler alguma obra japonesa. E agora o Desafio me deu um mês de dedicação a coisinhas vindas lá do oriente, vai ser algo muito interessante...

Bom, melhor coisa da leitura de “Kokoro” foi perceber como estou acostumada à literatura ocidental: até imaginava os personagens com olhinhos puxados, mas, com o enredo situando-se no final do século passado, via seus figurinos e residências com aspectos típicos da era vitoriana!!! #facepalm

Fiquei com nojo de mim mesma; pelo menos percebi isso ainda no começo do livro – se eu tivesse passado a história toda idealizando os cenários daquele jeito, teria desistido de ser leitora. Que coisa vergonhosa!! Isso me lembrou muito de uma série de textos incríveis sobre estereótipos das suposições das aparências. Não vou me estender sobre isso agora pois é um assunto sem fim, mas recomendo demais dar uma olhada neles.

Mais um da série "Peguei o livro pela capa" XD
Enfim, agora falemos sobre o livro, um clássico da literatura nipônica e com nada de realmente especial em seu enredo. O protagonista, estudante universitário, vive sozinho em Tóquio e conta como foi o seu relacionamento com um ser muito reservado que sempre chamou de "professor". A diferença de idade entre os dois era grande e por isso suas opiniões, valores e prioridades muitas vezes não coincidiam; isso não impediu que os dois acabassem virando bons amigos, e o mais novo estimava muito mais os ensinamentos dele do que aqueles vistos em sala de aula.

Eu não tenho certeza absoluta se eu gostei ou não desse livro. Apesar da narração de Soseki ser muito fluida, eu demorei bem mais do que previ para terminar a leitura. O livro é dividido em três partes, e as duas primeiras até que foram bem tranquilas de serem lidas. Mas a última foi quase um sacrifício - nesse momento o professor faz um "pequeno" relato sobre seu misterioso passado que o tornou tão anti-social. Esse pedaço foi extremamente entediante, muitos detalhes desnecessários que poderiam ter sido cortados sem nenhum prejuízo. E, apesar do personagem ter passado por maus bocados, pouco afetou minha opinião sobre ele.

Natsume Soseki.

Ao mesmo tempo, eu adorei como o autor falou sobre várias coisas de um jeito realmente atemporal. Muitos detalhes sobre a sociedade comentados durante a história podem falar tanto sobre o comportamento humano no Japão do século XIX como na Rússia no século XXI. Ele não fala sobre o pessoal da sua época, mas sim da humanidade como um todo.

"Você acha que só há um tipo de pessoa má neste mundo. É claro que não existe um modelo de pessoas más. Normalmente, são pessoas boas. Pelo menos, são todas pessoas normais. Mas, numa dada circunstância, tornam-se más, o que é apavorante. Por isso, não devemos nos descuidar."

Há uma parte em que um personagem descreve um triângulo amoroso do qual fez parte; não sei bem se foi a intenção do autor, mas fiquei com uma impressão muito forte de que, no final, o narrador dessa passagem queria ficar com a garota mais por um sentimento de competição com o outro menino do que por amor à ela. Achei isso brilhante.

Vi de relance na orelha e na introdução do livro muitos comentários sobre como os personagens e suas características refletem o Japão daquela época, seu imperialismo sobre os países próximos, e bláblábláblá...tá, é interessante, mas para mim é bem mais do que isso. Se você não se interessa por isso tudo, pode aproveitar a obra e suas mensagens sem problema nenhum.

O problema com esse tipo de observações sobre simbologia e metáforas que existem em livros clássicos é que eles sempre me deixam com a desconfiança de que eu li errado. Ou de que eu não li com atenção o suficiente. Ou ainda, que eu não estava totalmente madura para absorver a leitura. Bom, fiquei com essa sensação horrível quando terminei a última página. Só piorou depois que eu vi um monte de resenha elogiando esses detalhes sutis. Notei e apreciei muitas passagens, mas sinto como se tivesse deixado escapar muita coisa. Acho que lerei novamente daqui a bastante tempo.

Por fim, eu realmente estou com mixed feelings em relação a esse livro. Foi muito, mas muito entediante mesmo em certas partes; a história, até durante o clímax, pouco me interessou. Mas mesmo assim gostei muito das filosofias que pesquei. Só que a minha pessoa antes dessa leitura e depois não mudou nada. Acho que, com tantos elogios que vi sobre essa história, acabei tendo expectativas altas demais...

PS: Se você pegar este livro, NÃO LEIA a orelha ou a introdução antes de terminar de ler. A editora Globo, muito simpática, colocou por aí spoilers monstruosos. Acabei vendo-os sem querer antes do tempo e sim, eles quase acabaram com a minha vontade de continuar a leitura.


PS2: A obra até originou o episódio de um anime chamado "Aoi bungaku" (em português, "Literatura azul"). Parece que são 12 no total, com adaptações de 6 clássicos japoneses. O character design foi feito pelo Takeshi Obata (sabia que conhecia esse traço de algum lugar!). Não gosto muito de anime - prefiro mil vezes mangá - mas com certeza darei uma chance à este.

PS3: Cara, que treco grande que isso aqui ficou!! Não achei que me estenderia tanto...

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